sexta-feira, 28 de março de 2008

O Homem de Pedra

Hoje vou lhe contar uma estória. Essa não é engraçada, nem ao menos profunda, é apenas uma estória.

Vou contar hoje a conto do homem do coração de pedra.

Era uma vez um homem que possuía um coração de pedra nada o abalava, sua fachada era de concreto e seus nervos de aço. Nunca havia sentido nada, tristeza ou alegria, dor ou prazer, ódio ou amor. Esse homem era simplesmente inabalável, era como se fosse um mero autômato.

O homem de pedra com seu semblante sisudo vivia as emoções dos outros uma vez que não possuía emoções próprias. Se alguém contava uma piada não ria por conta própria, mas assim que os que estavam em sua volta o faziam ele prontamente respondia da mesma maneira, uma vez que lhe parecia adequado agir como uma pessoa normal. Se alguém ficasse indignado com alguma coisa o homem de pedra rapidamente concordava, uma vez parecia plausível, afinal ele está tão indignado que realmente deve fazer algum sentido. Caso alguém estivesse triste ele não hesitava em ficar também. E foi assim que viveu.

O homem de pedra sempre agia como os outros em relação a sentimentos e logo passou a ser conhecido como a pessoa mais emotiva que existia, mesmo sendo desprovido de qualquer emoção. O fato é que por desconhecer todo e qualquer sentimento o homem de pedra não sabia discernir os momentos mais oportunos de demonstrar os seus sentimentos e logo o fazia em toda e qualquer situação.

O homem de pedra estava muito cansado com o fato de não ter sentimentos e já há muito tempo tinha curiosidade de como seria sentir as coisas. Então procurou o melhor médico que existia, ele contou a sua estória e o médico logo respondeu, posso facilmente resolver o seu problema, mas devo lhe avisar os sentimentos nos traem, os sentimentos e emoções são perigosos e uma vez que você os adquira jamais poderá deixar de ter-los.

O homem de pedra não se importou e falou com o médico que o curasse logo.

Agora já provido de sentimentos o homem de pedra resolveu experimentar-los, começou logo pelas piadas, pois parecia que as pessoas gostavam muito delas. Procurou logo o melhor humorista do mundo, mas o homem de pedra não estava preparado para o que iria acontecer, uma vez que ele nunca tinha rido de verdade em sua vida. Antes mesmo do humorista terminar a piada o homem de pedra já se encontrava prostrado no chão em prantos de tanto que ria, assim ele ficou por quase uma semana, só parou quando o seu corpo sucumbiu ao cansaço.

Um pouco assustado com acontecido chegou à conclusão que não queria mais ouvir piadas, pois elas eram muito dolorosas.

Tentou então experimentar a dor, primeiro procurou saber o que causava dor, logo ficou sabendo que um corte de faca era muito doloroso. Então munido de uma faca se cortou, mas ele nunca havia sentido dor, mal a faca tocara sua pele já não suportava a dor e já estava a correr pela rua pedindo por socorro. Poucos entenderam o que havia ocorrido já que o homem que se queixava de tanta dor possuía apenas um pequeno arranhãozinho em um dedo.

Ele ficou bestificado com a dor e decidiu que não queria sentir dor nunca mais.

O homem de pedra estava preocupado, nunca pensara que os sentimentos pudessem ser tão ruins. Ele se recolheu ao seu lar decidiu não sair de lá nunca mais.

Algum tempo se passou e um ladrão invadiu sua casa, matou sua mãe e o seu cachorro. O homem de pedra nunca havia sofrido e não sabia o que era a dor da perda, até aquele dia. Ele achou que fosse morrer de tanta tristeza, ficou dias a fio sem comer, sequer dava conta de sair de seu quarto, afinal tinha experimentado também outro sentimento o medo, tinha medo de tudo e de todos, então se excluiu da existência da humanidade.

Eis que um amigo seu que era policial lhe contara que haviam pegado o assassino de sua mãe. O homem de pedra que nunca havia experimentado o ódio saiu de sua casa como um tiro e foi descarregar a sua ira no ladrão. Não ele não utilizou armas, ele utilizou apenas os seus punhos para espancar o homem até que ele não mais respirasse. E pela primeira vez o homem de pedra experimentou a culpa. Ele não conseguia se olhar no espelho, se sentia a pessoa mais vil e baixa do mundo, então foi tomado por uma depressão profunda.

Já em desespero o homem de pedra não sabia mais o que fazer para voltar a viver em paz. Então procurou saber mais sobre os sentimentos, devia haver algum que fosse realmente bom. A muito já havia ouvido falar do amor do quão sublime ele era de como as pessoas eram felizes amando.

Ele então saiu em busca de um amor.

Por muitos anos o homem de pedra cruzou o mundo em busca de um grande amor. Eis que um dia ele conheceu uma mulher maravilhosa. Tudo nela era perfeito, ela era linda, tinha um corpo escultural, era de uma inteligência e sagacidade nunca antes vista, tinha bom gosto, era simplesmente incrível. É claro que para o pobre homem não foi muito difícil se apaixonar. Ele fez das tripas coração para conquistar aquela moça, até que conseguiu fazer-lo.

Agora sim esse sentimento ele havia gostado, o homem de pedra se sentia nos céus, se sentia invencível. Ninguém ao menos pode imaginar o que ele sentiu quando fez sexo com ela pela primeira vez, ele não acreditava que havia passado toda a sua vida sem conhecer essas sensações. O homem de pedra agora já não se importava com tudo de ruim que suas novas emoções lhe haviam trazido.

Mas por essa o homem de pedra não esperava, o seu grande amor tinha muitos problemas para resolver consigo mesma, e notando o quanto o homem de pedra estava apaixonado ela se assustou e achou por bem se afastar dele. O homem de pedra não imaginava que pudesse existir algo que doesse tanto quando a perda de um grande amor.

O homem de pedra sofrera como ninguém antes havia sofrido, pelo menos era isso no que ele acreditava. O homem de pedra havia perdido todo o prazer pela vida, não queria mais nada.

Passou anos sofrendo e então resolveu tomar uma atitude. Voltou ao médico e falou que queria voltar a não sentir nada. Mas como o próprio médico já havia lhe dito tal reversão era impossível.

O homem de pedra saiu de lá desolado, sentia uma vontade extrema de simplesmente deixar de existir. Já havia por milhões de vezes tentado reconquistar a sua amada, isso apenas o fez se afundar ainda mais em sua tristeza, pois ela impassível não cedeu aos encantos do pobre homem.

Então o homem de pedra encontrou a solução, ele decidiu que iria se matar e acabar com todo o seu sofrimento. Mas por mais essa ele não esperava, o homem de pedra já havia conhecido o medo e a dor física e a simples lembrança de tais sentimentos rapidamente lhe desencorajou de fazer-lo.

E foi assim que o pobre homem de pedra viveu o resto de sua vida, trancado em sua fortaleza fria sem ousar fazer nada para não viver tudo o que vivera novamente.

O homem já no fim de sua vida então reparou que havia perdido tudo o que um dia tivera. Mas mesmo que pudesse voltar no tempo faria tudo igual novamente, pois sabia que alegria que sentira embora que efêmera fora o suficiente para compensar uma eternidade de sofrimento.

Hoje o procedimento que foi realizado no homem de pedra foi banido pela medicina e quem quiser sentir terá de viver a vida para fazer-lo.

O palhaço deixa o picadeiro, with a broken heart that seems that will never heal.

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